Exigências contraditórias no trabalho: quando qualquer escolha parece errada
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Exigir produtividade elevada e, ao mesmo tempo, impedir que o trabalhador organize seu fluxo de trabalho. Cobrar atenção integral a uma atividade enquanto outras demandas urgentes continuam se acumulando. Determinar o cumprimento de prazos, mas não oferecer tempo, autonomia ou condições adequadas para alcançá-los.
Situações assim são exemplos de exigências contraditórias: demandas que entram em conflito e colocam o trabalhador diante de uma equação difícil de resolver — atender a uma exigência pode significar necessariamente deixar de atender a outra.
Um risco psicossocial
As exigências contraditórias são reconhecidas no campo da saúde ocupacional como fator de risco psicossocial. A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (EU-OSHA), por exemplo, inclui expressamente as “exigências contraditórias” entre as condições de trabalho capazes de gerar riscos psicossociais.
Na literatura científica, o fenômeno também se relaciona a conceitos como conflito de papel (role conflict) e duplo vínculo organizacional (organizational double bind). Este último ajuda a compreender situações em que o trabalhador é submetido reiteradamente a demandas incompatíveis sem possuir autonomia ou condições efetivas para solucionar a contradição.
O resultado pode ser especialmente perverso: qualquer escolha pode se transformar em motivo de crítica.
NR-1: olhar também para a organização do trabalho
A NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), regra básica do governo brasileiro que define as diretrizes gerais de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) e serve como a base para todas as outras normas da área, ao tratar do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, determina que sejam considerados os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho.
Isso significa que a prevenção do adoecimento não deve se limitar à capacidade individual de lidar com pressão e estresse. É preciso olhar também para a maneira como o trabalho é organizado: volume e ritmo das demandas, autonomia, clareza das responsabilidades e compatibilidade entre aquilo que é exigido e as condições oferecidas para sua realização.
Quando a contradição adoece
A exposição reiterada a exigências incompatíveis pode provocar ansiedade, insegurança, desgaste emocional e sensação permanente de insuficiência.
Há ainda um efeito particularmente nocivo: depois de ser criticado repetidamente, independentemente da alternativa escolhida, o trabalhador pode deixar de perceber que as exigências são incompatíveis e começar a concluir que ele próprio é incapaz.
Uma ordem contraditória isolada não caracteriza assédio. O alerta surge quando essas situações se repetem e passam a integrar uma forma de gestão marcada por cobranças incompatíveis, ausência de condições para o cumprimento das tarefas e desqualificação do trabalhador.
As políticas de prevenção ao assédio do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e os materiais educativos do Tribunal Superior do Trabalho (TST) reforçam a necessidade de ambientes de trabalho pautados por respeito, critérios adequados de gestão e prevenção de práticas abusivas.
Ambientes saudáveis não são ambientes sem cobrança. São ambientes em que aquilo que se exige pode efetivamente ser realizado.
Veja mais sobre o assunto em: https://osha.europa.eu/